Carta ao Pai


Ontem tive um sonho. Primeiro sonhei acordado, era tarde de segunda, tempo nublado. Depois, sonhei adormecido, na mesma segunda de tempo frio. Ele viria me completar, me fazer sorrir ainda mais, e entender a graça da vida. E o calor tomou conta de tudo, preencheu cada espaço deixado ao léu pelo frio cortante. Foi um sonho tão bom, que foi capaz de me aconchegar como uma montanha de travesseiros de pena, ursos de pelúcia e almofadas fofas aveludadas com cheiro de amaciante floral. Pude por um instante, mesmo sem nunca ter passado por isso, ter sentido tudo que você sentiu, ter pensado tudo que você viveu e ter a alegria e a felicidade estampada no seu rosto por esse sentimento insubstituível de paternidade e constatei, o quanto você pode sim, ser feliz. Durou pouco, e não deu errado. Deu certo. Você foi feliz. Não me importa que tenha acabado antes. Nós fomos! E brigo com quem disser o contrário. E acordei afoito, ansioso, com uma “dor” boa no peito, uma preocupação sadia. Lembrei-me de tudo, dos teus erros, dos teus acertos, medos e coragem, lembrei da sua pessoa, de você, que na verdade, nunca esqueci. Como esquecer da sua gargalhada? O bar ficava na esquina e eu nunca ficava preocupado contigo, pois da rua, jogando bola, mesmo sem ver-te, eu ouvia aquele estrondoso som que pra mim, soava harmonioso. Foi com certeza a gargalhada mais sincera que já ouvi em toda vida. A mais gostosa, e hoje, quando sorrio e os amigos tiram sarro da risada, me lembro com orgulho de onde ela veio. Lembrei-me do quanto foi corajoso, ao entrar armado na nossa casa, mesmo no escuro, e pegar aquele ladrão que estava escondido lá e do quanto você foi homem ao não bater nele percebendo que ele estava bêbado. Lembra disso? Eu lembro! E do Tota? Aquele marginalzinho que sempre me perseguia no futebol da rua, até o infeliz dia do teu mau humor. –Se eu te ver perto do meu filho eu vou te dar uns cacetes ouviu malandro? Eu te admirava Negão. Muita coisa. Convenhamos, teu jeito pra paternidade não era lá essas coisas, talvez nem o meu seja. Tu era meio Ogro, meio desligado, e conforme vou escrevendo pra ti, vou percebendo mais semelhanças. E apesar disso, você era excelente. A seu modo, mas era. Não me cabe julgar, nem querer que teu amor fosse mais moldado, mais sublime. Ninguém ama igual, ninguém gosta igual, e se você não me amava convencionalmente como um pai, eu juro que me lixava, pra mim não significou nunca que você não me amasse com toda a sua força. Você me amava, e é com isso que me importo. Hoje, cada vez que entro no Maracanã, confesso vir uma lágrima de saudade, que sempre disfarço: -Calma, to chorando pelo Mengo! Me vêm à memória aqueles 3 x 1 do Mengo em cima do Santa Cruz, três do Artur, do Galinho. Você saiu rouco! Não me lembro, se comemos cachorro-quente ou biscoito globo, só lembro que comemos, e essa é, infelizmente, a única lembrança que tenho contigo dentro do Gigante Mário Filho, mas não fique triste, se houveram outras, essa com certeza foi minha primeira vez, e ela está viva em minha memória, e se agita, revive, cada vez que ouço nossa torcida gritar Mengo, tal como a bandeira do Popeye que você comprou pra mim. Eu queria uma maior, igual a sua, mas eu nem agüentava... Obvio que lembro dos nossos jogos de dama e da sua saudosa “colher de chá”! “Malandro, malandro, joga direito, olha aqui ó! Vou te dar uma colher de chá” Lembro-me da Fanta Uva na pracinha do Estácio, aquela em frente ao Felix Pacheco, dos churrasquinhos na Presidente Vargas no carnaval. Negão, negão! Tu lembra quando tu foi me pegar no colo doido de tanta manguaça no bar e caiu comigo e minha mãe queria te matar? Negão, você aprontava! Como você era tão pacífico e calado pra agüentá-la e que não sei! Ela não era fácil e lidar! Cara, eu lembro que minha mãe ria de ti! Também pudera, tu fritava um ovo que ficava preto! Como tu conseguia? E o chamava de ovo na brasa!
E vão-me aflorando lembranças, que agora confesso, não sabia que estavam guardadas, talvez tivesse que parar de lamentar a ausência delas e ter escrito antes. Logo eu, que amo escrever. Não vai acreditar que lembrei que de vez em quando, vai, era muito de vez em quando mesmo, você chegava são, e mandava nos arrumarmos pra ir ao Galeto, aquele em frente ao Clube Municipal! Nem eu sabia que essa lembrança existia. Pai, lembro-me também do dia do Mcdonalds, que pequenino, comi 2 McFish com Milk Shake de baunilha e tu detonou 2 quarteirões, e a mão nos olhando. Não deu outra, a noite, passei mal, muita coisa! E o dia do Bob’s da Cinelândia? Você pediu aquele prato que vem com o hambúrguer aberto e salada! Cara, eu lembro pai, eu lembro! Que você começou a rir quando minha mãe te contou que me pegou atrás da porta tirando a roupa da minha prima. Eu esperava tomar uma coça sua, e ela esperava que você o fizesse! Você me deu um boneco do Rambo! Como você não conseguia fazer surpresa! Impressionante! Levar o jornal pra eu escolher, se queria o Rambo de camisa, ou sem camisa! Ali eu já sabia que ia ganhar Negão! Do nosso gato, o Tico! Você era o mais troglodita, e eu sei que apenas aparentemente, pois foi o filhote chegar em casa e você era o que mais brincava com ele. Na tua folga de segunda, quando me levou ao colégio, passamos ali na feira do Estácio e comemos pastel, e você enchia o teu com pimenta! E me dizia: -É bom malandro! É bom! Me orgulho de ti, e mais ainda, te agradeço por ter um jeito simples, igual ao teu, de se preocupar muito mais com o gol do que com o preço do ingresso, com o pastel do que com a pastelaria, com a alegria do jogo do que com o preço da bola ou com a gargalhada do programa de humor do que com a quantidade de polegadas da TV. Você me ensinou, sem querer, mas ensinou, e eu te afirmo que aprendi. Meu coroa, cessam-me as memórias e lembranças, sei que são poucas pra 11 anos de companheirismo contigo, mas queria que tu soubesses que foram “Os onze anos”! Te amo assim, desse jeitinho que tinha de ser pai. E essa noite sonhei que viria o meu Artur, e quis acordar, e ir no quarto ao lado, dividir isso contigo, contar que entendi tudo, toda a sensação boa de ser homem,de ser pai, mas aí me veio a última lembrança de ti: Que você tomou aquele Pózinho de Fada e sumiu nos céus, pra um lugar onde nos encontraremos depois, mas não agora. Prometo que o primeiro presente do pequeno Artur será uma camisa do Mengo, igual a que tu me deu quando nasci. Negão, obrigado por tudo.

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